A História do Benjamin
Tinha pose de rei, jeito de dono e uma presença impossível de ignorar. A história de quem deu origem ao Ben Cuidados.
Benjamin
Um Spitz Alemão branco, com carinha de ursinho. Chegou à nossa casa em 18 de junho de 2019, com sete meses, quando eu ainda carregava a perda do Billie. Ele ocupou um espaço que estava vazio — e, aos poucos, me ensinou de novo a amar sem medo.
Ben era o dono da casa. Não por posse, mas por presença. Movimentava a rotina, participava de tudo e tinha um jeito muito particular de se relacionar com cada um de nós.
Ele não demonstrava amor da mesma forma para todos. Com cada pessoa e cada irmão, parecia encontrar um jeito próprio de estar perto, de pedir carinho, de cuidar e também de impor seus limites. Talvez fosse justamente isso que fazia dele o centro da casa: Ben conseguia despertar em cada um uma relação única.
Também tinha suas certezas. O ovo mexido da manhã precisava ser conferido até o último pedaço. Meias usadas estavam entre seus brinquedos favoritos, logo depois de uma pelúcia laranja que era praticamente patrimônio pessoal. E, se acolhia cada novo irmão com naturalidade, também deixava muito claro quando algum deles invadia demais o seu espaço.
Esse jeito de pequeno rei ia com ele para onde fosse. Em uma viagem a Budapeste, no Castelo de Buda, vestido de rei, foi recebido pelas pessoas ao redor com um “Salve the King”. A cena era divertida, mas combinava perfeitamente com ele: Ben tinha presença.
Ben corria, viajava, fazia check-ups todos os anos e nunca tinha apresentado nenhum sinal que nos fizesse imaginar uma doença cardíaca importante.
Até o check-up de dezembro de 2024.
O diagnóstico
Aproveitamos a limpeza dentária dos irmãos para fazer também o check-up anual do Ben. Clinicamente, ele estava excelente. Fizemos exame de sangue, eletrocardiograma e, dessa vez, um ecocardiograma.
O ecocardiograma mostrou degeneração da válvula mitral já em estágio B2, com aumento cardíaco importante e remodelamento significativo do coração. Até ali, não havia nenhum sintoma evidente.
A frase que mais me marcou foi que , naquele estágio, poderíamos ter cerca de um ano.
Como isso podia ser possivel? Foi a pergunta que mais repeti durante o Depois do diagnóstico, o nosso cachorro perfeito, que corria, viajava, nunca tinha apresetando nenhuma queixa - de repente ter uma contagem regressiva sobre a vida dele. Então, comecei a procurar informações, histórias parecidas, cães jovens com a mesma doença, médicos e possibilidades. Não encontrei muita coisa que pudesse me dizer por onde começar, e essa sensação é, até hoje, a que mais me aproxima das famílias que chegam aqui.
Os check-ups do Ben não incluíam exames específicos para avaliar a saúde do coração. Ele era jovem, saudável e não apresentava queixas ou sinais que sugerissem uma doença cardíaca. Por isso, quando recebemos o diagnóstico, não havia como saber há quanto tempo a doença estava presente — se havia evoluído rapidamente ou se já estava ali, silenciosa, havia anos.
Foi uma das coisas que essa experiência mais me ensinou: não esperar necessariamente um sintoma para começar a conversar sobre a saúde do coração do seu cão. Pergunte ao veterinário quando e de que forma faz sentido avaliá-lo.
Os primeiros meses
O Ben começou o tratamento com Vetmedin e o acompanhamento cardiológico. Passamos a observar tudo — qualquer tosse, qualquer sinal de cansaço. Mas a orientação foi deixá-lo viver, e foi o que fizemos: ele continuou ativo, passeando nos horários de sempre e participando da rotina da casa.
Após conversarmos com o Dr. Guilherme e conhecermos as possibilidades de tratamento, a cirurgia cardíaca no Japão ainda parecia uma realidade muito distante. Naquele momento, o V-Clamp passou a ser nossa primeira opção.
Havia a expectativa de que profissionais com experiência nesse procedimento viessem ao Brasil entre o final do primeiro semestre e o início do segundo de 2025. Decidimos, então, aguardar essa oportunidade, enquanto buscávamos compreender melhor a doença e buscar histórias reais de cães que haviam passado por esses tratamentos.
O Ben seguia estável, e isso também nos fazia acreditar que teríamos tempo para percorrer esse caminho.
No final de maio, a doença começou a mudar.
Quando a doença mudou
Vieram as primeiras crises respiratórias. O coração descompensou, e ele precisou ser internado e receber oxigênio; em alguns momentos, a gengiva ficava arroxeada de tão pouco ar.
Foi quando a prioridade mudou. Já não se tratava apenas de acompanhar a doença, mas de mantê-lo bem. O tratamento foi ajustado, e o acompanhamento com a Dra. Denise Murakawa ficou mais próximo.
Com esses ajustes, o Ben voltou a se estabilizar. E, com ele bem novamente, chegou o momento de entender qual caminho poderíamos seguir.
A cirurgia no Japão ainda me parecia uma realidade distante, principalmente pelo período de quarentena de seis meses. Depois de termos vivido aquelas primeiras crises, eu não queria vê-lo passar por tudo aquilo novamente.
Naquele momento, o V-Clamp ainda seguia como uma possibilidade mais próxima. Havia a previsão de que médicos com experiência no procedimento viessem ao Brasil para realizar as cirurgias, e o próximo passo passou a ser entender se a anatomia do coração do Ben permitiria que ele também fosse um candidato ao V-Clamp.
Avaliação para V-Clamp
Com o Dr. Guilherme Goldfeder, o Ben passou pela avaliação para o V-Clamp. Para saber se o procedimento era possível, era preciso conhecer em detalhe a anatomia da válvula — e, para isso, foi feito um ecocardiograma transesofágico.
Em agosto de 2025, veio a conclusão: por uma característica anatômica da válvula, o Ben não era um candidato adequado ao V-Clamp.
Não foi um fracasso. Foi uma possibilidade investigada com cuidado que, para o caso específico dele, não era indicada. Cada cão precisa de avaliação individual.
Se aquele caminho não era possível, quais outros existiam?
A decisão pelo Japão
O outro caminho era aquele que já tínhamos conhecido em março: o reparo da válvula com circulação extracorpórea, realizado na JASMINE, em Yokohama, pela equipe do Dr. Masami Uechi. Decidimos seguir por ele.
A partir dali, começou a preparação: o caso do Ben foi enviado para avaliação, vieram exames, documentos e uma quarentena sanitária que precisava começar imediatamente para que ele pudesse entrar no Japão.
Nesse período, o Mighty Hearts Project — uma comunidade internacional de famílias que já tinham passado pela cirurgia — foi um apoio essencial. Em muitos momentos, foi a única referência que tivemos.
Agora existia uma meta clara: conseguir chegar ao Japão. Até lá, o Ben ainda precisava atravessar alguns meses.
A corrida para chegar até lá
Entre dezembro e janeiro, veio uma nova sequência de crises. Os exames trouxeram achados novos: uma possível inflamação dos brônquios e um colapso de traqueia associado ao tamanho do coração. Veio também o primeiro desmaio.
O tratamento ficou mais complexo: ele passou a tomar seis medicamentos diferentes por dia. Com essa necessidade de ampliar a medicação para manter o quadro controlado, o Ben passou a ser classificado como estágio D, o mais avançado da doença. A equipe veterinária trabalhou para mantê-lo estável — e, depois das crises, ele se estabilizou.
A rotina se adaptou. O Ben passou a sair de carrinho, e os passeios ficaram mais curtos. Até março, ele foi mostrando menos disposição para correr e menos interesse até pelo ovo da manhã.
O objetivo daqueles meses era um só: mantê-lo estável e com qualidade de vida suficiente para chegar à cirurgia.
No fim de março, embarcamos.
Japão
Em 29 de março de 2026, começamos uma viagem de cerca de trinta horas, entre voos e escalas, que eu temia profundamente. Mas o Ben passou por tudo com uma tranquilidade que nos surpreendeu: dormiu durante quase todo o percurso, sereno do início ao fim.
Ali, mais uma vez, ele nos mostrava o quanto nosso garoto era forte e corajoso.
Em Yokohama, vieram a consulta e a avaliação pré-operatória na JASMINE. A Dra. Sayaka Takeuchi explicou os riscos com transparência — arritmias, inflamação e a possibilidade, mesmo rara, de algo fatal no pós-operatório. Saímos com medo, mas também com confiança.
Nos dias seguintes, caminhamos por Yokohama, visitamos a Chinatown e o Park Yamashita onde admiramos as lindas Cerejeiras que estavam em epóca do florecer. E, em uma Sexta-Feira Santa, no Brasil, sábado no Japão numa avenida movimentada, encontramos por acaso uma imagem de Jesus. Para nós, foi um sinal de que estávamos no caminho certo.
A cirurgia estava marcada para 6 de abril.
A cirurgia
Acordamos às 5h30. Mesmo em jejum, Ben foi direto até a cozinha pedir sua comida, como fazia todas as manhãs. A disposição para a comidinha caseira nunca falhava.
Arrumamos a pequena mala da internação e seguimos para a estação. Deixei que ele fizesse o caminho andando — queria que chegasse ao hospital vivendo aquele começo de dia do jeito mais normal possível.
Antes de entregá-lo à equipe, segurei suas patinhas e disse: “Seja forte e corajoso. Vão cuidar do seu coração. Confia na mamãe.”
A cirurgia foi longa e complexa, bem além das horas previstas. Por volta das 13h, o Dr. Masami Uechi nos buscou na recepção e nos levou até a sala de cirurgia. Vimos o Ben, e ali ele nos contou a notícia: a válvula tinha sido reparada e a regurgitação, que antes era grave, estava mínima no resultado imediato, e sua situação era estável.
A equipe também contou que foram implantadas onze cordas — muito mais do que o habitual — e que, durante o procedimento, houve uma complicação: o coração dele precisou de choques para voltar a bater. O caso do Ben era ainda mais complexo do que os exames tinham mostrado — e ele havia atravessado tudo aquilo.
Naquele dia, não estávamos sozinhos. O Dr. Guilherme Goldfeder e a Dra. Viviane Galeazzi viajaram até o Japão para acompanhar a cirurgia do Ben. Foi uma grande bênção: graças a eles, conseguimos receber fotos e notícias dele durante as primeiras horas depois do procedimento.
Uma hora depois, o Ben estava acordado, sentado e estável. À noite, ficou um pouco agitado, mais ainda seguia bem, deram um sedativo para que descansasse. Estávamos aliviados, mas ainda sim, sabíamos que os primeiros dias poderiam ser críticos.
Durante a madrugada de 7 de abril, o hospital entrou em contato para avisar que o coração do Ben havia parado.
Ben foi forte até onde Deus permitiu.
O que ficou
Quando olhamos para tudo o que vivemos com o Ben, pensamos também no que ele deixou em nós.
Foram meses de cuidado, entrega, dúvidas, noites em claro e uma busca constante por compreender a doença e oferecer tudo o que estivesse ao nosso alcance. Mas, no meio de tudo isso, Ben continuou ensinando aquilo que sempre soube fazer melhor: amar de forma inteira, constante e sem medida. Foi com ele que entendemos, de verdade, a dimensão do amor incondicional.
Toda essa trajetória também nos transformou. Ben renovou nossa fé, trouxe sonhos que nasceram com ele e nos deu força para continuar mesmo quando não sabíamos exatamente onde aquele caminho terminaria.
Depois da sua partida, começamos a olhar para a história inteira com outros olhos. E foi então que um detalhe, que até ali parecia apenas parte das datas da nossa vida, ganhou um significado diferente:
Há séculos, o número sete aparece associado à ideia de completude e plenitude em diferentes tradições religiosas e culturais. Ao percebermos como ele atravessava momentos tão importantes da história do Ben, esse significado passou a tocar também a nossa.
Não porque sete anos tenham sido suficientes — nunca seriam. Mas porque começamos a entender que uma vida completa não se mede apenas pelo tempo.
Ben foi completo no amor que nos deu, na forma como despertou e renovou nossa fé, nos sonhos que fez nascer e em tudo o que nos ensinou sobre entrega, coragem e amor incondicional.
E, talvez sem sabermos, toda essa trajetória também estivesse nos preparando para continuar depois dele.
Por que existe o Ben Cuidados
Quando recebemos o diagnóstico, faltaram informações organizadas, histórias reais, clareza sobre os caminhos e pessoas que já tivessem passado por aquilo. Ao longo da jornada do Ben, aprendemos muito. Depois da partida dele, entendemos que esse conhecimento não precisava terminar conosco.
Foi daí que nasceu o Ben Cuidados: para que outras famílias encontrem com mais facilidade informação, orientação, profissionais, possibilidades, experiências reais, apoio — e perguntas para levar aos seus veterinários.
Não prometemos cura, nem dizemos que a cirurgia é o melhor caminho ou que toda família deve fazer o que fizemos. Cada cão, cada estágio e cada família são diferentes. O que oferecemos é informação para conversar com a equipe veterinária e compreender melhor as próprias possibilidades.












